Gostaria de registrar aqui alguns pontos sobre socialização na escola e contar uma historinha. 🙂

Primeiro, nenhuma escola brasileira está realmente preparada para receber alunos autistas.Fato. Existem escolas inclusivas? Sim! Mas, a postura inclusiva sozinha não faz verão. É como se eu dissesse que vou montar uma empresa fornecedora de legumes orgânicos produzidos em minha fazenda, mas não tivesse a terra virgem ou preparada nos conformes, não pagasse um salário justo aos meus funcionários e “só de vez quando” colocasse um pesticidazinho no meu alface! Ou seja, digo pra as pessoas que é “orgânico”, mas quando o meu cliente vai fuçar percebe que não tenho competência pra receber o selo de orgânico!

Não seria tudo na vida se pudéssemos criar um selo para “escola inclusiva”? Ahammmm, touchè! Aí eu queria ver! Já pensou se o governo desse um prazo para as escolas se adequarem e fosse avaliando cada estabelecimento através de um orgão competente (que no momento não existe)? Já imaginou se, pelo menos as leis já existentes, fossem cumpridas à risca no tocante à educação de pessoas com necessidades específicas como é o caso dos autistas?

Acontece que somos um país que sequer tem rampas de acesso para os cadeirantes em grande parte dos estabelecimentos! Imagina se as escolas irão se incomodar em contratar terapeutas ocupacionais competentes para avaliar disfunção sensorial de cada aluno autista matriculado! Pra quê? Pra fazer as devidas acomodações sensoriais em sala. Pra determinar o nível de tolerância nas atividades propostas e oferecer ferramentas para o professor trabalhar melhor assessorado.

Você ainda acha que existe alguma escola inclusiva de verdade para os autistas do Brasil? Faça a seguinte análise:

A escola: (vou colocar só algumas coisas importantes)

1-Matricula sem dificultar?

2-Oferece AT sem cobrar dos pais?

3-Não cobra taxa extra?

4-Faz avaliação prévia para determinar acomodações sensoriais e as executa desde o primeiro dia de aula?

5-Trabalha com o conceito de adaptação curricular?

6-Dá importância real à “coaching social” com o aluno, “treina” a socialização do aluno com um adulto intermediador?

Não? Então, pra mim, a escola não é inclusiva pro autista! Ela pode até ter a postura, mas não possui a competência! Estou pedindo demais? Acho que não! Está escrito ESCOLA na placa da instituição, ela deve servir à todos em suas necessidades educacionais. Assim como o HOSPITAL deve servir a todos em suas necessidades de atendimento de saúde e assim por diante. SE EU ME PROPONHO A EDUCAR EU TENHO QUE ME ADEQUAR! Simples assim. A educação é um direito garantido na Constituição, não?

Eu bem sei que as questões de saúde negligenciadas no autista resvalam diretamente na escola e que existem casos mais difíceis/delicados em que não se consegue adequar bem a demanda daquela criança/adolescente no ambiente escolar. Mas, gente, sequer crianças de alto funcionamento estão conseguindo uma inclusão de sucesso! Autistas verbais! Uma minoria se encaixa e se adapta. Uma maioria esmagadora ou não está na escola ou está na escola À DERIVA, sem aprender e sem socializar de verdade!

Fiz uma breve pesquisa em meu perfil do Facebook e reafirmei o que já sabia… que a maioria das crianças não estão incluídas! Estão matriculadas, porém não incluídas de fato.

Vou me ater aqui apenas ao ponto 6 que citei acima. O que vejo nas escolas é que a criança autista sempre está isolada nos horários de lazer, recreio, brincadeiras e ensaios para festinhas e apresentações; Vem aí o São João e, com ele, as inúmeras histórias de exclusão de todos os anos que leio em depoimentos de pais no Face, no Instagram e assim por diante.

Por que a escola precisa se importar com isso? Porque nem sempre é a criança ou adolescente que se isola. Muitas vezes eles são isolados porque não sabem como lidar com a situação ou porque não descobriram como interagir de modo que seu interesse seja capturado e sua participação apreciada. Aham, que tal?

Quando alguém se machuca em um acidente e perde os movimentos das pernas, o que acontece? O fisioterapeuta fica parado olhando a pessoa sentada numa cadeira de rodas esperando que ela se levante por si mesma e saia andando? Claro que não! Existe todo um processo de TREINO exaustivo. A fisioterapia é um estímulo e um treino ao mesmo tempo! A pessoa precisa aprender a andar de novo. O cérebro precisa receber um empurrãozinho para fazer as devidas mudanças e adaptações plásticas que tornarão possíveis os primeiros passos após meses de imobilidade.

Imaginemos que um autista está com suas “pernas sociais” imóveis! Ele sequer sabe que consegue “caminhar” nesse processo de sociabilidade, pois nunca o fez antes! Provavelmente nunca fez amigos! E olha, a gente precisa fazer essa caminhada acontecer logo cedo! Por causa do autista? Não! Por causa do neuro típico! A criança em tenra idade não distingue essas “diferenças” que nos causam desconforto em idade mais avançada. Conviver com um amiguinho diferente desde cedo proporciona um novo mundo para crianças que não precisam lidar com tantas limitações quanto os nossos filhos têm de lidar! Enquanto são pequenos tudo é possível! Plantar a inclusão e um coraçãozinho sem preconceito é uma tarefa que quanto mais cedo for feita mais frutos renderá.

Tenho a impressão que as deficiências são uma balança para a nossa sociedade que já é tão competitiva e insensível. Sempre que somos fragilizados pela vida, por meio de uma doença, de uma morte, ou de uma jornada inesperada como é o autismo, ficamos mais fortes e mais atentos ao próximo. Sim, a vida fragiliza e nos tornamos mais fortes como consequência e não consigo explicar esse paradoxo até hoje, mas é certeiro!

O que ocorre é que muitos pais acabam colocando os filhos autistas na escola “pela socialização”. Socialização que na maioria das vezes é exatamente o que NÃO acontece! Passeie pelos corredores de uma escola, veja onde estão os autistas no momento do recreio. Eles precisam de treino! Precisam da “fisioterapia do amor” de uma pessoa adulta em quem confiam. Alguém que ofereça ferramentas, brincadeiras estruturadas, que faça acomodações, que convoque a turminha para a inclusão do amigo. O que acontece é que nossos filhos ficam à deriva nas escolas. Ninguém sabe o que fazer com eles porque não foram treinados para isso ou não têm vontade/vocação! Esperam que o autista por si só se inclua, descubra como se brinca de pega-pega, de esconde-esconde… Como um fisioterapeuta cruel que se sentasse ao lado de uma pessoa em cadeira de rodas e dissesse: ande que estou te assistindo! Se você andar eu ficarei muito feliz, se não andar, tudo bem. Não andar é o “seu natural”, você foi colocado nessa cadeira pela vida, então tudo bem!

É isso que estão fazendo com nossos autistas nas escolas! Estão colocando sentenças, estão com preguiça, estão destreinados e alheios ao que pode ser feito pelos nossos filhos. As escolas não investem, não treinam e não ligam! Elas fingem que ligam, mas não ligam. Se fossem receber o meu idealizado “selo da inclusão” teriam que achar terras virgens dentro de seus corações, teriam que adubar com conhecimento e com carinho, teriam que pagar e treinar bem as pessoas especiais que regam essa “terra fértil” que é a mente dos autistas!

Não, não existe escola inclusiva. Existem PESSOAS INCLUSIVAS e dedicadas dentro das mais variadas escolas púbicas ou privadas. Existem SERES HUMANOS que se importam e que se comovem com cada conquista dos nossos filhos! Se você acha que seu filho está incluído, ele deve estar mesmo! Deve estar incluído no coração de alguém que o ama e que encontrou potencial em seus olhos. Alguém que ouviu através do silêncio. Alguém que é de fato e de direito MESTRE!

Amigos, eu fiz uma tentativa.  🙂  Sim, eu tentei uma escola e nela eu fiquei por quase 40 dias, adaptando, observando, redigindo folhas e mais folhas de observações! Eu observei outras crianças. Eu fui “coach” da minha Passarinha! Não contei a ninguém, pois não queria responder a perguntas ou ser cobrada, mesmo se essa não fosse a intensão dos meus amigos mais chegados que também não sabiam. Eu queria observar e tentar sem ter a interferência das pessoas. Eu queria deixar a escola no anonimato, pois eu tenho esse blog, então as pessoas iam me cutucar e eu não ia e nem vou falar nada a mais. Digo apenas que a escola foi maravilhosamente acolhedora, ela me aceitou e fez de tudo que podia e sabia. Eu fiquei dentro da escola, eu quase bati o ponto lá. 😀  Mas, não deu certo! Estou de volta ao homeschooling agora e eu e Stella estamos muito bem resolvidas com esse assunto! \o/

Encontraremos outras formas de socialização. Eu nunca quis que a escola fosse só pra isso. Mas, se fosse, de verdade servisse para esse fim, eu permitiria que ela ficasse lá. Mas também não estava funcionando para isto.

Stella não sabe fazer amigos. Isso é fato. Stella aprenderá a fazer amigos. Isso também é fato, pois eu estou aqui pra fazer isso acontecer. Cada etapa que já conquistamos que parecia impossível, como a fala, por exemplo, eu sempre tive a certeza que ia acontecer. Quando ela aprende mais um voo eu comemoro e deixo voar, mas já planejando a próxima rota, mais difícil, mais elaborada, com mais vento, em meio às colinas, rente à água! Sempre tem um voo mais difícil pra executar e ela vai. Sempre. Não tem fim.

Quero deixar aqui registrada a minha solidariedade a todas as famílias que estão descrentes com as escolas. Todas aquelas que responderam ao meu questionário no meu perfil pessoal. Todos os que matricularam “porque é o jeito”. Todos os que estão com seus filhos autistas fora da escola e fora do mercado de trabalho. Isso é inadmissível, isso é injustificável. Devemos brigar para que essa realidade se mostre diferente. Não podemos cobrar aceitação da sociedade se as crianças em idade escolar não têm a oportunidade de conviver com a diferença. Se o que vêem nas escolas, no máximo, é uma inclusão velada. Como posso cobrar das empresas e dos empregados que aceitem e que enxerguem as pessoas autistas se essas estão “escondidas” em casa?

É tão lento esse processo! São tão poucas pessoas em luta diária pelo coletivo! O brasileiro, se tem posses, costuma não ligar muito para quem não tem. Se pode pagar o melhor tratamento e a escola “menos pior” já acha que está com todos os seus problemas resolvidos e se esquece que a criança cresce e que precisará conviver em uma sociedade alheia às necessidades dos autistas, sejam eles de alto ou baixo funcionamento (permitam-me me expressar assim para melhor esclarecer).

Enfim, pessoal, confesso que achei muito lindo minha pequena sentadinha escrevendo do quadro. Mas eu sou muito questionadora e comecei até mesmo a mentalmente questionar todo um sistema de educação oferecido a TODAS as crianças! E isso não foi segredo para a escola! Muitas vezes expus meu desconforto e fui respeitada e ouvida. Mas, fazer o quê? Se pais de crianças de 6 anos preferem cobrar da escola que seus filhos estejam “com o livro que comprei todo completo de capa a capa” do que terem como saldo mais importante a certeza que seus pequenos são crianças felizes e emocionalmente inteligentes!? A escola está tirando das crianças o ser criança!  A escola está podando a criatividade e a inspiração da vida dos pequenos! E a culpa é da sociedade mesmo! Muitas vezes dos pais que cobram “resultado”. Bem, pra mim tá tudo errado, sabe. E esse é um outro assunto bem mais comprido que não caberia aqui.

Quantas vezes admirei a professora da turma por chamar a atenção dos pequenos para as coisas simples da vida, a minhoca na grama, o arco-íris no céu numa tarde de chuva inesperada. Quantas vezes admirei aqueles aluninhos por acolherem tão bem as crianças “especiais” da sala com a naturalidade que só crianças podem ter. Sentirei saudades desses dias apesar de todos os meus momentos de reflexão, que não foram poucos!

Não posso publicar fotos, pois as crianças estariam expostas sem autorização, então segue uma foto de costas! 🙂

Sou grata ao Pai por cada tentativa e por cada semente que plantei na escola onde estivemos por muitos dias. Sempre nasce alguma coisinha daquilo que plantamos com alegria. Agora somos nós duas de novo. Stella e a tia-mamãe! E como eu já disse para quem achou que isso fosse problema para mim… A filha é minha, quem mais se importa com ela sou eu e e não vou deixar o Estado me cobrar aquilo que ele mesmo não cumpre. Respeite meus impostos e me deixe em paz que sobre a educação das minhas filhas decido eu e isso me é garantido na Constituição!

Quanto à Passarinha, está feliz e serelepe. Acabou a pressão da escola. Ela sabe que pode contar comigo e sabe que eu dou acolhimento, mas não dou descanso. O céu é vasto e ela vai ganhá-lo todinho se depender de mim!

(Na foto: Stella é a de rosa!) 🙂

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Obs: Não citei aqui as Escolas Especiais porque não tenho experiência com esse tipo de escola. Contudo, reconheço e respeito muitíssimo a importância do trabalho realizado nessas instituições. Muitas vezes essa é a melhor alternativa para uma criança ou adolescente autista que, por algum motivo, não teve sucesso em escolas regulares ditas “inclusivas” da rede pública ou particular. Saliento, no entanto, que minha pequena já esteve matriculada em escolas particulares e públicas do DF e que o despreparo está presente em pé de igualdade nesses dois polos. O que existe mesmo são PESSOAS/MESTRES inclusivos. Escolas inclusivas preparadas de fato para atender autistas ainda não vi e nem ouvi falar em nenhuma. Como a maioria dos pais desse país eu sonho com as CLÍNICAS-ESCOLA para os autistas! Tanto prédio abandonado e obra inacabada por aí! Isso na mão dos pais de autistas seria OURO! Mas… :/

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About Evellyn Diniz

Hoje eu sou super mãe! Me formando todos os dias nas áreas de saúde e educação. Mas antes de adquirir super poderes fui muitas coisas e ainda sou! Vendedora, professora de inglês, apresentadora de TV, editora de imagens, cantora de banda de rock e fiz faculdade de jornalismo... Atualmente sou mãe e esposa em tempo integral e cuido da casa nas horas vagas! Minhas 3 filhas são minha continuação e minha continuidade. A caçula chama-se Stella Bertille que significa estrela brilhante. Ela veio ao mundo para mudar o mundo para mim, ela veio ao mundo para brilhar! Stella está vencendo o AUTISMO. Este blog é por ela. Destina-se a ajudar pais e mães a entenderem que o PODER de fazer nossos filhos atingirem a plenitude pertence aos pais. Aqui compartilho videos, fotos, matérias, experiências e pensamentos sobre o Transtorno do Espectro do Autismo. Coloque a sua capa e sua roupa de herói que os desafios aqui não são de faz-de-conta!

8 responses »

  1. Fernandalindemann@hotmail.com diz:

    Show! Tirou as palavras da minha boca quanto a inclusão que é até apavorante a precisão nas tuas colocações de tão milímetricamente idêntica a minha opinião tbm em relação ao modelo de educação do País atualmente…Parabenizo tua iniciativa e tenho esperança que a sociedade entenda que não precisamos de um lugar para nossos filhos passarem algumas poucas horas do dia numa instituição que muitas vezes só conta com a boa vontade de algumas professoras iluminadas…PRECISAMOS DE EQUIPE ALTAMENTE QUALIFICADA PARA LIDAR COM NOSSOS AUTISTAS COM TERAPIAS EFICAZES E SAUDÁVEIS!!! Grande abraço nessa família abençoada!

  2. LUCIA diz:

    MEU FILHOS CHAMA-SE LUCAS GABRIEL – O ENVIADO DE LUZ! NÃO É SHOW?!?

  3. Geraldo Braga diz:

    Parabéns pelo belo texto, concordo plenamente com suas colocações, também sou pai de um jovem de 16 anos, que é Asperger e Baixa Visão (somente 3% útil). Jamais encontramos uma escola inclusiva. Hoje é um dos melhores alunos da turma dele, em termos de desempenho escolar.

  4. Sandra diz:

    Evellyn parabéns pelos textos e pela colocação. Tomei a liberdade de colocar uma das matérias no meu site, acho importante o maior número possível de mães lerem. Coloquei a fonte. Se quiser conhecer meu site o endereço é http://www.transtornos.org e se quiser mandar matérias para publicação, fique à vontade, meu e-mail é transtornosdiversos@gmail.com Abraços, Sandra R. Pereira

  5. rosilane diz:

    Olha Evellyn, nunca lí um texto tão coerente no que diz respeito a inclusão. minha filha com 4 anos já passou por três escolas,nenhuma delas se propôs a dar a atenção devida que a criança com autismo precisa para o aprendizado. Muitas professoras não sabem nem o que é estereotipia, acho que nunca leram sequer sobre autismo. Temos que contar realmente com pessoas interessadas nos nossos filhos dentro dessas escolas.

  6. Paula Anjos diz:

    Texto sensacional! Parabéns e muito obrigada por compartilhar.
    Vc disse tudo que está entalado na minha garganta a tempos.

    Grande bj,

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